Alessandra Siedschlag Alessandra Siedschlag

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Editora de Famosos e TV do portal R7. Paulista, paulistana, são-paulina, mudo de cabelo como mudo de idéia e faço uma pasta al salmone de comer ajoelhado.

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    Reflexo


    As coisas acontecem assim em minha vida: vêm de um algum lugar estreito e chuvoso, a cavalo, a galope, entram em mim, não sei como, e se espalham, se derretem, se fundem, se magmam. Amanhecem, ensolaram. Depois me habitam, não estando, mas sendo. As coisas dentro de mim não são mais coisas, apenas são. E ficam. E ficam.

    Ficam escondidas, mas ficam.
    Ficam retidas, amalgamadas, empedram, incrustam.
    De vez em quando, vê-se um de seus raios em meio a uma minha gargalhada.
    Mas é um reflexo, apenas. Um reflexo, como um soluço, como um suspiro.
    Como uma gargalhada.

    À tarde, elas se vestem em luvas. E às vezes me arranham, e às vezes me afagam.
    Não tenho medo, exatamente. Nada é exato dentro de mim.
    Dentro de mim, não há ciência, nem soft sciences, nem hard.
    Aqui dentro, nada hard, mas tudo arde.

    Uma fome tenra, tão tenra que nem existe.
    Uma fome talvez transformada em lava.
    Um impulso amarrado em rédeas que não levo.
    Que amarras? Tudo arde.

    Sonhos dilatados em uma réstia de essência
    São a extensão do meu céu, e povoam minhas noites
    Não recuso paixão, e não recuso permanência.

    sobe

    Oásis


    A tempestade de areia
    Encontrou minha alma
    E, como tudo que por ela passa,
    Também foi embora.

    Agora, cá estou,
    Num oásis de sonhos,
    Com minha alma-morta
    Ressuscitada
    Em meio a peixes fisgados
    Por pedaços de carne-viva.

    sobe

    Invenção


    Um silêncio quase absoluto:
    Ouve-se apenas um roçar de mãos
    Tal vôo de inseto
    Em teia de aranha
    E um som de sílabas que revoam,
    Amordaçadas,
    No céu da boca.

    Tomara eu chovesse em ti como tempestade.
    Tudo o que permanece
    Um dia se deixou destruir.
    Pelo menos um pouco.

    Sou nada menos que isso:
    Um reflexo de vales profundos
    Nada suave
    Uma inexatidão.

    Só posso existir assim:
    Vindo, não sendo,
    Chegando, chovendo –
    E é assim que te recebo.

    sobe

    Litoral


    Debruço-me sobre as pedras do passado
    E já não vejo nada, só as gordas nuvens
    Das quais despenquei meu corpo, olhos fechados
    Para dentro do que eu não sabia o que era

    O peso insustentável do monstro medo
    Que flutuava dentro de minh´alma
    Não foi suficiente para lograr
    As imensas asas brotadas da vontade

    E pousei aqui, enfim, e aqui fico
    Gruta, abrigo, caverna, amante
    Banhada pelo teu corpo litoral.

    sobe

    Praia


    Eu era aquela de olhos fechados
    Ali, escondida, na praia rochosa
    Com a alma rachada, em meio a assombros
    E algas e peixes e sustos e nada
    De dentro do nada saiu não sei quem
    Que não sei de onde trouxe não sei o quê
    Rasgou minha boca, meus olhos meus laços
    De fora a fora, e eu então fui alguém.

    Apagou-me o passado e matou minha fome
    No exato instante em que me entrou na vida
    O roxo perfume contido em teu nome.
    Petra

    sobe

    I


    Meu não-corpo, grudado em teu ser
    Minha imensa inexatidão
    Colada ao teu peito, concreta
    Pedra.
    Te espero despontar
    E umidificar-me
    Com a líquida luz da madrugada
    Sol.
    Derrama-te. Sorvo-te.
    Pétrea, toma-me; ingrata, granita-me.
    Um grito banhado de luz
    É muito mais gratificante.

    sobe

    II


    O leite com que a carne nutre o ventre
    A inexata imensidão
    Desapego de tudo, abstração
    Tempo.
    Vida cadente, estrelada, que se aquece
    Angústia cinza daquilo que não se conhece
    Entretanto, ainda assim se transforma
    Crisálida da alma, esta.
    Escorro-me. Descobre-te.
    Tateia-me. Devoro-te.
    Estendo-me, imensa, úmido rochedo
    Que se deixa secar em tua boca noturna de sol.

    sobe

    Dias


    Eram dias felizes, estes
    Em que cavalgávamos nossos corações selvagens
    Ferindo nossas pernas com seus espinhos,
    Sangrando rios de sal, acordando manhãs não raiadas
    E dormindo noites mal sonhadas

    Eram dias estranhos, estes
    Dias sem frases inteiras, dias desconexos
    Em que se lançavam ferozmente palavras ao céu
    Para recebê-las de volta em forma de luz, cobertas de cor
    Com os braços bem abertos

    Foram dias, enfim, e não noites
    Em que tudo foi humano até seu próprio limite
    Em que nossas mãos deslizaram pelos mares
    De mármore branco de escadas fugidias
    Naufragando-nos, solenes, para dentro de nós mesmos.


    sobe

    Sal

     

    Todo o sal esparramado, quero todo ele, agora, na palma da minha mão. Entorpecer por acumulação e não por passagem.
    Lamber, sentir, engolir talvez. Desterrar.
    Dessalguei há algum tempo e agora tenho fome. Alagada. Desa(r)mada. Melodia em três tempos, tropeçando a dois por quatro, mas indo em frente e rindo de mim.
    Rindo muito de mim.
    *
    Então me dá teu sal e - repito - diz qual é meu nome.
    Talvez eu goste. Quem sabe eu fique.
    Pelo menos um pouco.

     

    sobe


    Idea

     

    A idéia que circula incandescente. O mar fora de mim, que de tão extrínseco não me sabe. O mar não sabe a mim; eu não sei a mar.
    E esses dias que não conheces passam lentos. E os invernos em que não fui tua não existem.
    Um quarto de lua que se faz monte; um quarto da casa que se fez verbo.
    Montanhas.
    Latejas, grande. Impulsionas, infinito. Não queres.
    *
    O meu não-estar que enlouquece, os pés descalços que não se cobrem, o esvaziado que existe.
    Que existe.

     

    sobe


    Aniversário

     

    Palavras que se enroscam feito meia arrastão em minha perna, cor novembro-intenso.
    Quisera fosse janeiro ou algo assim, para ainda ter jasmins pra colher na calçada. Não colhi.
    E é um verão que congela e é um esbranquiçado que enegresce até o que não existe mais.
    *
    Abomino segredos.
    *
    A maldita da vontade.
    *
    Quando eu tinha 19 anos eu era mulher.
    Me perdi mesmo aos 21, quando cresci e virei menina.

     

    sobe


    Petra

     

    Porque esse deveria ser meu nome.
    Sempre. Sou pedra, não me movo, e tchabum, o mar bate em mim o tempo todo. Quero ir também, mas não consigo. Jogo uns cascalhos, finjo que vou, sabe? Finjo que vou, e as pessoas acreditam. Mas eu não vou, eu nunca fui, e às vezes duvido que algum dia consiga ir. Porque sou pedra, porque sou pietra, porque sou roccia, rock, stone, erigiram-me aqui e aqui estou e tenho muito medo, e tenho tanto medo, meu Deus, quanto medo aqui dentro, e já sou meio medo e meio pedra, dura, tudo duro, tudo tão frio. E dentro de mim às vezes desejo que fosse oco, pra poder me deixar mais leve, mas não sou passagem, e sim acumulação, e tá tudo acumulado, aqui dentro, olha, tudo tão acumulado e amalgamado, mesmo aquilo fragmentado está todo aqui, nas caixinhas, e não vou porque não posso, porque não tenho raízes mas sou tão pesada, aqui, entre toda essa massa pétrea que um dia achou que eu pertencia àqui, e eu acreditei, e deixei, e fiquei. E agora não tem eu que não fique, porque fiquei e fico, e resto. Por isso os peixes passam por mim e riem. Por isso as ondas passam e avançam sobre mim. Por isso as algas aproveitam e se prendem em minhas pernas, e por isso eu grito e o grito que ninguém ouve vira pedra também, ele também. Que Midas irônico esse, que tudo toca e tudo gruda, e amalgama, e fica dentro, bem dentro, bem fundo, e não larga, e craca, e petrifica.
    E esse é meu segredo mais íntimo.
    E é isso que me dói tanto e eu nunca consegui dizer.
    E eu ia pedir um abraço.
    Mas podem ir embora, agora.
    Vão e não olhem pra trás.
    Porque de estátua, basto eu.


    sobe